I Encontro dos Microprojetos do Semiárido Baiano chega a Feira de Santana

Nesta terça-feira (31/8), cidade sedia evento que propõe avaliar a execução de ações culturais na região

Artistas e produtores culturais da região do semiárido da Bahia estão tendo a oportunidade de discutir e trocar experiências sobre a realização de projetos de cultura na região: o I Encontro dos Microprojetos do Semiárido Baiano se propõe a reunir agentes relacionados à execução das 243 propostas contempladas no Edital de Apoio a Microprojetos Culturais para o Semiárido Baiano 2009 e representantes das instituições públicas envolvidas, para avaliação de resultados e concepção conjunta de novas ideias e movimentos. O evento já aconteceu em Vitória da Conquista, na semana passada (25 de agosto, quarta-feira) e chega nesta terça-feira, 31 de agosto, a Feira de Santana (Centro de Cultura Amélio Amorim), das 9 horas às 18h30. Para participar, é solicitado confirmar presença através do e-mail editais.funceb@funceb.ba.gov.br ou do telefone (71) 3116-6638.

O objetivo do Encontro é fortalecer iniciativas que sejam capazes de promover a inclusão e o desenvolvimento social, reduzir a pobreza e contribuir para a melhoria da qualidade de vida de cidadãos baianos através da cultura. Com a socialização e o reconhecimento das realizações, será estimulada a articulação das pessoas envolvidas, visando um trabalho em rede, estruturado, que possa multiplicar resultados e definir estratégias para a solução de desafios comuns. Para tanto, os participantes farão um balanço dos projetos, com explanação sobre metodologias utilizadas e apresentação de dados já levantados. O I Encontro dos Microprojetos do Semiárido Baiano vai também contribuir para uma pesquisa com as comunidades locais, já iniciada pelo MinC, Funarte e Banco do Nordeste, sobre os impactos das ações viabilizadas.

O semiárido brasileiro é a maior área territorial dos espaços naturais do Nordeste do país, com características climáticas que acarretam deficiência hídrica, principal problema do desenvolvimento desta região marcada por históricas carências sociais e econômicas. Na Bahia, 281 municípios do semiárido foram foco do edital, que teve inscrições abertas de julho a setembro do ano passado, com o objetivo de fomentar a realização de atividades de cultura por meio do financiamento não-reembolsável de projetos de artistas, grupos artísticos independentes e pequenos produtores culturais. Voltado especialmente para estimular o exercício da cidadania de jovens, o edital direcionado ao semiárido baiano é uma iniciativa inédita alicerçada pela política de descentralização e democratização aplicada pelos Governos Estadual e Federal.

Parte do Mais Cultura, principal programa do Governo Federal para promover o acesso da população a bens e serviços culturais, o certame é desenvolvido na Bahia numa parceria entre o Ministério da Cultura (MinC), através da Secretaria de Articulação Institucional (SAI) e da Fundação Nacional de Artes (Funarte), e a Secretaria de Cultura do Estado (SecultBA), através da Superintendência de Cultura (SUDECULT) e da Fundação Cultural da Bahia (FUNCEB), com o apoio do Banco do Nordeste (BNB), através do Instituto Nordeste Cidadania (INEC). Prefeituras municipais também foram envolvidas, configurando uma ação pactuada nas três esferas do poder público.

Resultados
O Edital de Apoio a Microprojetos Culturais para o Semiárido Baiano alcançou um total de 1.166 inscritos de 231 cidades diferentes – o que representa que 82,2% dos municípios do semiárido inscreveram ao menos uma proposta. A seleção contemplou, por fim, 243 projetos de 211 municípios, abrangendo 24 Territórios de Identidade da Bahia, num alcance de 75% das cidades da região. O investimento total é de mais de R$ 3 milhões em prêmios para atividades nas linguagens das artes cênicas, artes visuais, audiovisual, literatura, música e artes integradas, com valor máximo de R$ 13.950,00 cada, tendo foco nas propostas que apresentam como principais beneficiários ou proponentes os jovens de 17 a 29 anos.

Um exemplo é o da artesã Gessyka Oliveira, da cidade de Milagres, no Território de Identidade do Vale do Jiquiriçá, que foi contemplada com o projeto “Oficina de Bonecas”. Preservando a tradição do artesanato na região, Gessyka mantém a herança familiar que vem sendo costurada em tecidos coloridos: “Cresci vendo minha mãe e minha avó fazerem artesanato, e com isso também me apaixonei pelas artes. Ao terminar o segundo grau, recém-casada, grávida e sem trabalho, decidi abrir, com minha mãe e mais três amigas, a oficina de bonecas. A partir daí, estamos estruturando uma associação de confecção de artesanato em tecido, que possa elevar a autoestima de jovens mães e gerar renda para elas”, apresenta. A oficina matricula jovens que, assim como Gessyka, engravidaram cedo e não tinham entrado no mercado de trabalho, introduzindo alternativas de capacitação profissional e formação social. A oficina já contabiliza cerca de uma centena de bonecas de pano produzidas e terá em setembro a sua segunda edição. “Vendemos muitas bonecas, de todos os tamanhos. A proposta tem sido bem aceita pela comunidade e o apoio do edital foi a base; sem ele, não seria possível. Foi um sonho realizado e que ainda tem muitos frutos a colher”, garante Gessyka.

Outra experiência bem-sucedida vem de Jequié, Território de Identidade Médio Rio de Contas. O projeto “Maria Vai com as Outras”, coordenado por Saulo Santos Oliveira ao lado de uma dezena de outros estudantes de Artes Cênicas da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), promoveu 10 oficinas sobre diversas técnicas cênicas, tais como clown e improvisação, para cerca de 300 pessoas, inclusive professores da rede pública de ensino. Superando o previsto no projeto original, foi também realizado um trabalho voltado para deficientes visuais, baseado na monografia de um dos universitários envolvidos. Da mesma forma, as oficinas de interpretação teatral, de construção de personagens através de figurino e iluminação, foram pautadas em trabalhos de pesquisa acadêmica de outros dois graduandos de Teatro, numa integração notável entre Universidade e comunidade, entre teoria e prática.

Além de atender os moradores de Jequié, o projeto “Maria Vai com as Outras” estendeu sua influência até a cidade vizinha Gandu, de onde também saiu público não só para as oficinas, como também para uma mostra de espetáculos, na noite de 12 de junho, no Centro Cultural Antonio Carlos Magalhães, espaço administrado pela FUNCEB, incluindo os espetáculos Na Escuridão do Sertão Quem Ilumina é Lampião, do grupo local É Corda, É Cordão, É Cordel, e Um Grito Parado no Ar, do grupo Giangua, de Salvador. A mostra cênica foi também uma feliz demonstração de como otimizar recursos, já que a proposta inicial não incluía a ida de uma peça da capital. “Resolvemos levar a montagem com atores e cenários aproveitando o frete do ônibus para os coordenadores das oficinas”, contou Saulo Oliveira, que avalia em 600 pessoas o público total beneficiado.

O projeto “Teatro em Sala de Aula” é mais uma iniciativa na área cênica apoiada pelo edital. Consiste na montagem de obras teatrais com elenco misto de atores e não-atores, a serem apresentadas a alunos da rede pública de ensino da cidade de Ibotirama, do Território de Identidade Velho Chico. Ainda em fase de construção, as peças integradas História no Camarim, Droga? Tô Fora! e A Poluição Vai a Júri Popular vão à cena em setembro, colocando em debate os temas da AIDS, do flagelo das drogas e da poluição do Rio São Francisco, respectivamente. A direção fica dividida entre Gilberto Morais e Aliomar Pereira, este último o proponente do projeto, que considera muito importante o aporte de recursos financeiros conquistado, já que há muito dirige peças e ainda não tinha tido a oportunidade de remunerar os atores e técnicos envolvidos, “que vivem em confronto com a sobrevivência e por isso são instados a abandonar o palco”, afirma ele. Aliomar também destaca o objetivo de sensibilizar jovens sobre as temáticas colocadas em cena, contribuindo para um movimento de consciência e ação através da arte e do acesso à cultura: “Não basta ter consciência, tem que agir”, resume.

O resultado expressivo do edital foi também reflexo de investimentos prévios e contínuos, como a realização de encontros, videoconferências, reuniões, seminários e oficinas de elaboração de projetos. Foram, assim, feitos esforços para mobilizar as comunidades e facilitar a participação pública, inclusive na atuação de Representantes Territoriais da Cultura e na formatação simplificada do edital – para o qual foram criados e distribuídos guias de orientação. Durante todo o processo de seleção, a Fundação Cultural contou com a colaboração de 36 prefeituras municipais na etapa de inscrição, das quais 24 foram parceiras também na etapa de pré-seleção.

Pela primeira vez no Estado, não apenas as inscrições foram realizadas no interior, como também a avaliação dos projetos. A partir da indicação de parceiros como o Fórum de Dirigentes Municipais de Cultura, a Coordenação Estadual dos Territórios e Conselhos Territoriais, o Comitê Gestor Estadual do Pacto Nacional “Um Mundo para a Criança e o Adolescente do Semiárido”, Conselhos Municipais de Cultura e Conselhos Municipais de Educação, foram nomeadas 24 comissões territoriais, que se reuniram para analisar e pré-selecionar os projetos inscritos em seus territórios.

As articulações do trabalho em rede e a descentralização das ações tornaram possível a chegada de informações e a movimentação nas mais diversas localidades, efetivando uma ação de democracia pela cultura da Bahia.

SERVIÇO
O quê: I Encontro dos Microprojetos do Semiárido Baiano
Com: Representantes do MinC, Funarte, BNB, SecultBA, FUNCEB e os artistas e grupos premiados no edital.
Quando: 31/8 (terça-feira), 9h às 18h30
Onde: Feira de Santana/BA (Centro de Cultura Amélio Amorim – Avenida Presidente Dutra, 2222 – Capuchinhos. Tel.: 75 3625-0572)
Quanto: Grátis
Confirmação de presença: editais.funceb@funceb.ba.gov.br / 71 3116-6638

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